Todos os nossos semelhantes

Se alguém ainda tinha alguma dúvida de que, no Brasil, há várias classes de cidadãos, o acidente com o avião da Air France acaba de provar que essa é a mais dolorosa de nossas verdades. Uma verdade que muitos de nós se recusam a ver porque nos envergonha.

Escrevo logo depois de ler que o presidente da República em exercício, José Alencar, acaba de decretar luto de três dias pela morte de cerca de cinco dezenas de brasileiros naquele acidente aéreo.

Nos últimos dias, o sumiço do avião sobre o Atlântico, as especulações sobre o que teria acontecido, os dramas pessoais decorrentes da tragédia e, finalmente, a confirmação da morte daqueles cidadãos, tudo isso foi alçado a um patamar que terminou pondo a nação de luto.

Não tenho nada contra o país condoer-se pelas vítimas dessa tragédia, até porque me condôo da mesma forma. São seres humanos, meus semelhantes.

Oponho-me somente a não haver luto oficial ou comoção da mídia quando outras cinco dezenas de brasileiros morrem de forma tão ou mais trágica no Norte e no Nordeste por conta de chuvas e inundações, com o agravante de que a tragédia norte-nordestina é de proporções muito maiores. Famílias inteiras desabrigadas, montanhas de feridos, gente adoecendo gravemente. Foram milhares os atingidos.

Pergunto: por que uma tragédia é menor do que a outra? Se são tragédias no mínimo igualmente trágicas, porque são tratadas pelo Estado e pela mídia de forma tão diversa? O que torna mais importantes os cidadãos que estavam naquele vôo trágico?

A resposta a essas perguntas é dolorosa: cor da pele e classe social. Ponto.

Não há dúvida sobre isso. Há gente que será suficientemente calhorda para negar, mas é lógico que, por haver quase uma totalidade de negros, índios ou seus descendentes entre os mortos do Norte e do Nordeste - e por serem todos pobres -, não merecem tratamento igual ao da esmagadora maioria de brancos de classe média alta que morreram no desastre aéreo.

Não estou contando nenhuma novidade. Todos sabem que é assim no Brasil e em tantas outras partes do mundo, inclusive no mundo rico, e ninguém fala nada. Aceitamos isso assim inclusive porque se trata do nosso grupo social, no caso do acidente aéreo, com variações maiores ou menores de poder econômico.

Eu, pelo menos, não consigo aceitar esse tipo de coisa. Não consigo me conformar. Exijo de mim mesmo ficar indignado. Não posso perder essa capacidade. Não posso achar que seja civilizado, decente, humano tratar seres humanos de forma tão díspar. E muito menos que todos aceitem calados uma barbaridade civilizatória como essa.

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