Exército levou 4 bebês de guerrilheiros, diz mateiro

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Logo que soube da expedição de buscas de corpos de guerrilheiros do Araguaia, Maria Mercês Castro, o marido e uma filha adolescente deixaram o Paraná, onde moram, para tentar mais uma vez saber detalhes dos últimos dias do irmão Antônio Teodoro de Castro, o Raul, executado em 1974. Após enfrentar 4 mil quilômetros de estrada, Maria Mercês ficou frente a frente com o ex-guia do Exército José Maria Alves da Silva, o Zé Catingueiro, 72 anos, que antes de atuar ao lado dos militares, integrou a guerrilha.

O encontro ocorreu na noite de domingo, na sede da Associação dos Torturados na Guerrilha do Araguaia, em São Domingos. De chapéu de couro, botas e roupas bem gastas, Catingueiro, sorrindo, cumprimentou Maria Mercês. Ela recorreu a velhas táticas que costuma usar para arrancar informações de quem esteve do outro lado da guerra. "Posso abraçá-lo?", perguntou Maria Mercês. Catingueiro, sempre sorrindo, abriu os braços.

Depois das revelações do oficial da reserva Sebastião Curió Rodrigues de Moura de que Raul estava na lista dos 41 executados, Maria Mercês passou a atuar em outra frente das investigações. Apurar se o irmão deixou uma filha, como lhe disseram duas pessoas que não se conheciam e moravam em lugares distintos, São Geraldo do Araguaia e Palestina.

Maria Mercês está atrás dos "bebês malditos", como os camponeses se referem a supostas crianças sequestradas de mulheres de cabarés que se relacionavam com guerrilheiros.

Catingueiro, que nas últimas três décadas sofre de uma espécie de tortura moral por ter colaborado com o Exército, tornando-se um dos guias mais importantes, começou a repetir as mesmas frases de desculpas que usa nas conversas com moradores da região. "Eu também sofri, antes de entrar no mato para pegar guerrilheiro, eu era guerrilheiro, fui muito maltratado, tive a costela quebrada", contou. "O senhor conheceu o Raul?", perguntou a irmã. "Conheci demais. Fui guerrilheiro também", respondeu o camponês. No jogo de convencimentos, ela enxugou o rosto e soltou. "Estou muito feliz, porque seus olhos viram meu irmão."

Com o clima de diálogo instalado, ela fez um pedido: "Eu tenho filhos. O senhor também tem?". "Oito", respondeu rápido Catingueiro. "Então, o Raul para nós, até agora, não teve nenhum. O senhor poderia dizer se ele teve uma filha aqui?" Camponês respondeu: "Se eu soubesse com precisão, eu diria".

Ela continuou. "É que eu soube de dois bebês, um era branco, que foram levados pelos militares ou que passaram a morar com famílias de gente daqui." Foi quando Catingueiro a surpreendeu. "Não foram só dois. Foram quatro. Um foi levado para Manaus. Um era menina."

Um dos bebês, negro, era filho do guerrilheiro Osvaldo Orlando Costa, o Osvaldão, como indicou um documento do arquivo de Curió.

Maria Mercês costuma viajar com ajuda financeira de outros irmãos. A família não integra nenhum grupo ou associação de parentes de guerrilheiros. Faz tudo por conta própria.

Maria Mercês perguntou a Catingueiro se ele conheceu Regina, uma possível namorada de Raul. O mateiro confirmou ter conhecido a moça que trabalhava num cabaré de Palestina. "Lembro demais. Ela teve uma menina. Branca, branca." Maria Mercês continuou. "Nós, irmãos do Raul, não temos mágoa. Ele veio para cá sabendo o que poderia ocorrer. Quem está na chuva é para se molhar. Agora, não temos nada dele. Se existir o bebê, teremos um bebê dele", apelou. "Se eu souber, darei a informação", disse Catingueiro.

Maria Mercês teve outro momento emocionalmente forte no encontro com o mateiro. "O Raul tinha alguma marca no corpo?", perguntou. Sem tirar os olhos do rosto dela, Catingueiro indicou com a mão o lado direito da barriga.

Maria Mercês avaliou que a resposta do ex-guia era suficiente ao menos para continuar as investigações sobre o paradeiro da suposta sobrinha. Raul tinha mesmo uma cicatriz no lado direito da barriga, um problema de infância.

Xerox : : Estadão

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