A Igreja de Honduras e ao Cardeal Oscar Andrés Rodríguez

O golpe de Estado em Honduras, desatado pela ditadura militar e seus cúmplices, trouxe morte, centenas de detidos, jornalistas perseguidos e presos, tendo seus equipamentos confiscados e seus direitos humanos violados.
Essa situação leva a perguntar ao Cardeal Rodríguez, ao ditador Micheletti e seus sequazes: Isso é o que esperavam? Assassinar pessoas indefesas, suspender as garantias constitucionais do povo, prender e reprimir aos que reclamam seus direitos e a restituição do presidente Zelaya em suas funções?
Cardeal Oscar Andrés Rodríguez, o caminho que elegeste de ser cúmplice da ditadura militar não é o caminho do Evangelho. Não podes estar contra teu povo e permitir a violência e a repressão que, em nome da suposta segurança e do direito, comete graves violações, precisamente, aos direitos humanos.
O pastor que abandona suas ovelhas e permite as atrocidades e apóia a ditadura para defender seus interesses econômicos e políticos, não é digno de ser reconhecido como Pastor de Cristo e de seu povo.
Na América Latina temos uma larga e dolorosa história de ditaduras militares e cumplicidades de hierarquias eclesiásticas que estiveram ao serviço da opressão e foram cúmplices da morte e do desaparecimento de pessoas, de torturas, para impor o terrorismo de Estado.
Lamentavelmente, essa atitude continua em vários países, como na Bolívia, com o comportamento do Cardeal Terrazas, que se aliou e apoiou aos golpistas para tentar derrocar o presidente Evo Morales. Na Venezuela, a hierarquia eclesiástica apoiou o golpe militar contra o presidente Hugo Chávez.
Escutei tuas declarações contra o presidente venezuelano. Tens o direito de dissentir; porém, não o de difamar. Nunca escutei tuas declarações para condenar a intervenção dos Estados Unidos em teu país e no continente, ou sobre as atrocidades cometidas na Colômbia e sobre a incursão armada contra o povo irmão do Equador.
Graças a Deus, existem signos de esperança e horizontes de vida e dignidade de irmãos e irmãs que, fieis ao Evangelho e a seu povo, se comprometem e lutam por um mundo mais justo e humano e muitos deles deram sua vida para dar Vida; são os mártires da Igreja que nos ensinam a seguir o caminho de Cristo. Recordas a nosso irmão Dom Romero, em El Salvador?
Sabes que Honduras é um país com uma larga história de intervenções dos EUA, apoiados por grupos econômicos, políticos e eclesiásticos. Hoje, esses mesmos grupos de poder, com a cumplicidade do embaixador dos EUA em Honduras, quem confessa que esteve reunido com os golpistas, se opõem às reformas propostas pelo presidente Zelaya e decidem dar o golpe de Estado para negar a Consulta Popular.
Que temes, irmão Rodríguez? Temes teus próprios medos? Temes a Consulta Popular através da qual o povo pode decidir o caminho a seguir? Tens medo dos pobres, de que eles participem e queiram aderir à Aliança Bolivariana dos povos das Américas (ALBA) e não se submeter ao TLC, que significa mais dependência dos EUA, e que essa decisão afete os interesses econômicos daqueles que sempre oprimiram o povo hondurenho?
Recorda que Honduras tem 70% da população na pobreza e 58% abaixo do nível de pobreza; situação provocada pela injustiça social e estrutural. Ao recorrer à violência contra o povo para sustentar a situação de injustiça estrutural e social, a situação tornou-se incontrolável. Estão como o "aprendiz de feiticeiro", já não sabem como pará-la.
A comunidade internacional reclama o imediato regresso do presidente Zelaya. A OEA, a ONU, setores sociais, políticos e religiosos, como os Bispos do Brasil, Dom Pedro Casaldáliga e Dom Demétrio Valentini, reclamam a volta à legalidade e o respeito à vontade do povo.
Escuta a voz do Bispo de Copán, de tua terra; escuta as milhares de vozes de todo o continente e do mundo, que rechaçam a ditadura.
Se o presidente Zelaya cometeu um delito, ou qualquer falta, o país tem a Constituição Nacional e as leis vigentes para determinar sua responsabilidade. Porém, vocês impedem a aplicação da lei e recorrem ao golpe de Estado. E pretendem disfarçar seus crimes com palavras vazias de conteúdo. Falam do Direito e da Constituição, da dignidade humana e os violam e contaminam, e respondem reprimindo o povo, provocando mortes e feridos.
Por que tantas contradições e falta de valores? O que têm a ver essas atrocidades com a mensagem de Cristo? Espero que em tuas orações Deus te guie e ilumine, porque estás perdido no emaranhado da incerteza. Até quando pensas continuar fazendo o papel de inquisidor, apoiando aos verdugos que implantaram o terror e assumiram o poder em tua terra?
Tens consciência de que o golpe de Estado em Honduras é um perigo para a democracia no continente? O povo tem direito à resistência frente às injustiças, a não cooperar com os opressores, a desconhecer os que usurparam o poder. E os governos e povos latinoamericanos têm a responsabilidade de desconhecer a um governo legítimo e repressor.
Muitos anos de luta e sofrimento implantado pelas ditaduras em todo o continente nos ensinaram na dor que é preferível morrer como homens e mulheres livres do que viver como escravos. Porque a esperança sempre nos mostra um novo amanhecer para a vida e para a dignidade de nossos povos.
Temos que resistir na esperança, irmão Rodríguez, e essa esperança está caminhando junto aos povos e nunca no caminho dos opressores. Tens que optar, como homem e como pastor: servir a Deus e a teu povo ou servir aos opressores e poderes de turno. São muitas as perguntas. Tu tens a resposta.
"Só a Verdade nos fará livres". Que o Deus da Vida te guie e ilumine e em sua Paz e Bem.
Adolfo Pérez Esquivel
Escritor - Prêmio Nobel da Paz

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