Guerra do Paraguai: a Guerra da Tríplice Aliança

Semanas atrás li um editorial do jornal argentino La Nación sobre a Guerra da Tríplice Aliança, acusando o ex-presidente paraguaio Solano López de ditador e de ter causado a Guerra da Tríplice Aliança ao tentar invadir territórios de países vizinhos. Tudo mentira! Uma bravata sem fundamentação histórica. Na verdade, a Guerra da Tríplice Aliança foi montada pela Inglaterra para derrubar a concorrência mercantil: o Paraguai da época era o país mais avançado do continente, fabricava desde agulha até estradas de ferro, e isso incomodava muito os governos vizinhos, controlados pela economia inglesa.
Nas últimas décadas alguns escritores paraguaios, brasileiros e argentinos tem publicado livros sobre o tema Guerra da Tríplice Aliança. Entretanto, o mais isento, honesto e bem informado dentre eles, é o escritor brasileiro Júlio José Chiavenato, autor de diversos livros, entre eles "A Guerra do Paraguai: genocídio americano", um dos mais vendidos nos últimos anos. Neste livro o autor revela que o Paraguai nos governos de José Gaspar Rodríguez de Francia, Carlos Antonio López e Francisco Solano López era o país mais desenvolvido da América Latina, não tinha dívida externa, quase todo paraguaio sabia ler e escrever (estamos falando de 1800. Ainda hoje muitos países não conseguiram erradicar o analfabetismo), havia reforma agrária, cada paraguaio tinha um cavalo e armas, formando um Exército Popular.
Em Ibicuí os paraguaios construíram a primeira fundição de ferro da América Latina, produzindo uma tonelada por dia, e para espanto dos países mais civilizados do mundo, em Ibicuí os paraguaios construíram - eles próprios - a primeira ferrovia do nosso continente.
Jornais em guarani e espanhol circulavam livremente nas cidades e nos meios militares, demonstrando a superioridade intelectual do país naquela época. Alguns jornais paraguaios em espanhol e guarani circularam no campo de batalha.
O progresso e desenvolvimento do país foi tamanho que a Inglaterra se sentiu ameaçada em seus interesses econômicos na região. Para acabar com o crescimento do Paraguai, e sua concorrência econômica nos países fronteiriços, os ingleses reuniram os governantes do Brasil (na época governado pelo monarca português D. Pedro II), Argentina e Uruguai para organizar uma guerra e dividir entre eles o território paraguaio.
Inicialmente, para justificar a guerra, o governo argentino criou atos de provocação aos barcos e navios paraguaios que cruzavam o Rio da Prata rumo ao comércio exterior. O imperador brasileiro ditava normas e leis para submeter o país, mas eram todas rechaçadas pelo governo soberano de López.
Finalmente, em 1864, forças paraguaias invadiram o território brasileiro do Mato Grosso, numa demonstração de força, para acabar com as provocações do governo brasileiro. Em resposta, no dia 1º de maio de 1865, em Buenos Aires, representantes do Brasil, Argentina e Uruguai firmaram o Tratado da Tríplice Aliança e decretaram guerra ao Paraguai.
Desta forma iniciou-se um dos maiores crimes de lesa humanidade do nosso continente. Uma nação foi sacrificada para atender aos interesses econômicos de governantes corruptos da Inglaterra, Brasil, Argentina e Uruguai.
Após o holocausto, o Paraguai foi governado - na sua maioria - por ditadores e políticos corruptos, impedindo que a Nação Guarani retornasse ao seu passado de glória, progresso e desenvolvimento.

A guerra trouxe para os argentinos muitas riquezas às custas da corrupção do Império brasileiro. Na frente de combate, revela o escritor Júlio Chiavenato, cavalos eram vendidos para as tropas brasileiras por valores superfaturados em até 10 vezes ao valor de mercado, e o mesmo aconteceu com mantimentos e alimentos. Após a guerra a dívida externa do Brasil e Argentina com a Inglaterra (fornecedora de armas) havia se multiplicado. Portanto, quem ganhou com a guerra foi a Inglaterra, com o derramamento de sangue de povos vizinhos e irmãos.

O comandante brasileiro Duque de Caxias, se recusava a obedecer os políticos da Corte para praticar crimes contra a população civil paraguaia, chegando a ponto de demitir-se do comando e enviar carta ao Imperador dizendo que "não queria ser o carniceiro dessa guerra. Agora estamos lutando contra crianças. Para vencermos teremos que matar todo o Paraguai". Em resposta o imperador nomeou seu genro, o português Conde d´Eu, que desprezava os brasileiros e foi o responsável por diversos massacres, entre os quais o de lacrar as portas de hospitais paraguaios e mandar incendiar; envenenamento de poços de água; em Acosta Ñu, 20.000 soldados brasileiros e argentinos cercaram centenas de crianças e mulheres paraguaias que se recusavam a rendição. Além de serem derrotados, o mato em que se abrigavam foi incendiado sob o olhar sorridente do fidalgo português Conde d´Eu.


Tratado da Tríplice Aliança

A união do Brasil, Argentina e Uruguai para combater o Paraguai recebeu o nome de Tríplice Aliança. O Tratado da Tríplice Aliança, que estimula as condições da Guerra, foi firmado em Buenos Aires, em 1° de maio de 1865, só ficou conhecido do público porque um parlamentar inglês o denunciou, em Londres. Esse tratado tinha um protocolo secreto que previa a partilha do Paraguai e seqüestro dos bens ao País.

Determinava ainda que não se poderia fazer a paz enquanto Francisco Solano López fosse o presidente do Paraguai. Foi chamado por um jurista de "corpo de delito", tais as irregularidades que continha. O protocolo secreto afirma que o Paraguai não poderia mais construir fortes de defesa e que todas as armas do país seriam divididas entre os aliados.

Foi cumprido fielmente: dividiram-se as terras paraguaias fronteiriças ao Brasil e Argentina e houve um seqüestro amplo do que se pode carregar do país.


Números do terrível genocídio

Ao fim da Guerra o Paraguai estava destruído. Cumpria-se a previsão do Duque de Caxias: foi preciso matar o último paraguaio no ventre de sua mãe para vencer o Marechal Francisco Solano López.

A mortandade foi terrível.

Ao começar a Guerra o Paraguai tinha 800 mil habitantes.

Na Guerra morreram 606 mil. Ou seja, 75,75% da sua população, reduzindo-se os 800 mil habitantes para apenas 194 mil, destes 194 mil sobreviventes, apenas 14 mil eram homens, entre os 14 mil homens que restaram, apenas 2.100 tinham mais de 20 anos, outros 2.100 tinham entre 10 e 20 anos. Assim, os restantes 9.800 tinham menos de 10 anos.

Isto é um genocídio.

Por outro lado, de uma população feminina de 400 mil antes da Guerra, sobraram 180 mil. Estas 180 mil mulheres - das quais umas 40 mil eram adultas - poderiam casar-se apenas com 2.100.

Essa tragédia explica a baixa população do Paraguai até hoje.

Mas isso não é tudo: Brasil e Argentina tomaram 140 mil quilômetros quadrados do território paraguaio. O equivalente aos Estados de Pernambuco e Alagoas juntos, ou mais que Portugal e Dinamarca unidos.

Suas terras foram divididas entre grandes empresas latifundiárias com sede em Londres e Nova York.

Nunca mais o Paraguai pode reerguer-se, sendo vítima de uma série de ditadores que esmagaram a soberania nacional em favor dos estrangeiros.

No Paraguai cometeu-se um dos maiores crimes contra a humanidade dos tempos moderno.



Cronologia da Guerra

1864 - Reagindo à crescente intervenção brasileira na geopolítica da região do Rio da Prata, principalmente na situação do Uruguai, Solano López, chefe do Governo do Paraguai, começa a reagir às hostilidades e provocações. Forças paraguaias invadem a província do Mato Grosso, iniciando a Guerra do Paraguai.

1865 - Reunidos em Buenos Aires, em 1º de maio, representantes do Brasil, Argentina e Uruguai firmam o Tratado da Tríplice Aliança; em junho ocorre a batalha do Riachuelo, na qual a frota brasileira, comandada por Francisco Manuel Barroso, vence uma esquadra paraguaia. O governo brasileiro convoca a Guarda Nacional e começa a organizar os batalhões de "Voluntários da Pátria". Grande parte formada por negros escravos em busca a alforria por participar da guerra.

1866 - O exército aliado, sob o comando do general argentino Mitre, vence os paraguaios na primeira Batalha de Tuiuti.

O Marechal Luís Alves de Lima e Silva, então Marquês (depois Duque) de Caxias é nomeado, em outubro, comandante-em-chefe de todas as tropas navais e terrestres brasileiras.

1867 - Fustigados pelos paraguaios, novecentos soldados brasileiros efetuam a Retirada de Laguna (de fevereiro a maio).

Forças paraguaias são derrotadas pelos aliados na segunda batalha de Tuiuti (3 de novembro).


1868 - Forças brasileiras tomam a fortaleza de Humaitá, que capitula honrosamente em 5 de agosto.

Após um ciclo de importantes vitórias brasileiras, o exército aliado comandado por Caxias toma a posição estratégica de Lomas Valentinas (27 de dezembro). Durante o mês de dezembro o exército paraguaio perde cerca de 20.000 homens e, apesar do alto comando conseguir escapar, fica totalmente desguarnecida a cidade de Assunção, capital do país. As tropas invasoras saqueiam Assunção e o Palácio de López, roubam tapetes, pratarias, quadros e objetos de valor.

1869 - Em 1° de janeiro à frente do exército aliado, Caxias ocupa Assunção; alguns dias depois cai a capital provisória de Luque, estabelecida por López meses antes.

Em agosto as últimas forças ainda em condições de resistir, comandadas pelo general Caballero, são liquidadas na batalha de Campo Grande (ou Acosta Ñu).

1870 - Com a morte de Solano Lopez, em 1º de março, no acampamento de Cerro Corá, e a completa derrota da resistência paraguaia, termina a Guerra do Paraguai, um dos maiores crimes da humanidade.

1871 - Brasil e Argentina tomam 1/3 das terras do Paraguai e impõe uma dívida externa como pagamento por despesas com a guerra. A Argentina fragmenta o território paraguaio usurpando extensa área de terra e recebendo o total das indenizações impostas na rendição. O Brasil devolve parte das terras paraguaias para melhorar a demarcação da fronteira e perdoa a dívida imposta ao Paraguai.


Conclusão

Escrever a verdade dos fatos é resgatar a história, não para provocar ódios ou revanchismo, mas para inaugurar um novo tempo de amizade, cooperação e compreensão entre os povos vizinhos e irmãos. Hoje os povos envolvidos na Guerra do Paraguai estão mais unidos e solidários, compreendendo que o inimigo está além das nossas fronteiras.

Como dizia aquele livro sábio: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará!"

xerox : Forum Social do Mercosul

3 comentários:

Nilson disse...

Muito bom o artigo.
Somente uma observação, segundo o livro OS VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA NA GUERRA DO PARAGUAI - VOL. I Escrito pelo General Paulo de Queiróz Duarte o Conde d'Eu era Francês.

Value!

Evandro disse...

artigo bastante pertinente que relata a guerra do Paraguai sucintamente, uma vez que, são meusurados os fatos mais importantes ocorridos neste massacre.

Anônimo disse...

Chiavenato disse, em uma palestra, que escreveu o livro baseado em relatos de pessoas no Paraguai. Dificilmente, pose-se dizer que o método foi científico.